quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Perna de Angola,Pirajuçara e Bremen

     O ano era 1983, e em meio ao pobre e violento bairro do Pirajuçara em Taboão da Serra, o então garoto Marcio Lourenço que viria a ganhar o apelido de Perna, tinha o seu primeiro contato com a capoeira, cultura que viria a se tornar um verdadeiro estilo de vida para ele. Porém, para Perna a capoeira surgiria de fato só três anos depois, quando conheceu mestre Marrom que vinha do bairro Rio Pequeno, Zona Oeste de São Paulo. Também foi nessa época que o grupo Irmãos Guerreiros foi fundado, o grupo que defende a capoeira angola e a cultura afro brasileira que não parou de crescer e se espalhar até hoje.


    Os Irmãos Guerreiros recebiam diversas visitas de outros grupos, e em uma delas Perna recebeu a convite para ir à Alemanha dar aulas por apenas três meses. Esses três meses logo viraram dez anos. Logo de cara, o contra mestre Perna sentiu as diferenças entre o Brasil e Alemanha, principalmente na parte social. Porém, o racismo que era seu grande receio não se confirmou, pois segundo Perna, o racismo aqui no Brasil é muito mais forte e evidente do que na Europa: “No Brasil sempre sofro mais por ser negro, da periferia e ter rasta. Aqui, quando as pessoas não gostam de você, elas não falam com você, não ligam pra você, então é melhor assim. No Brasil temos o preconceito escondido, que é pior. Sou tratado muito bem em toda a Europa, não tenho o que reclamar, só a agradecer”.

    Ao Longo desses dez anos de vida na Alemanha, Perna desenvolveu um grande trabalho de difusão da cultura brasileira: “No momento, a capoeira angola esta muito forte na Europa, tenho muitos alunos aqui Alemanha e o povo se dedica muito mais do que no Brasil”, diz Perna. Hoje, o grupo Irmãos Guerreiros mantém espaços em cerca de cinco países como Portugal, Áustria, Polônia, Eslováquia e Alemanha. Perna vive em Bremen, lá mantém uma casa de cultura chamada Cazua. Na Cazua são desenvolvidas diversas atividades culturais ligadas ao Brasil como dança, percussão e principalmente capoeira. O espaço recebe pessoas do mundo todo que em comum tem o interesse pela cultura afro brasileira.



“Tenho um pedaço da comunidade do Taboão dentro da Alemanha”

    Pelo menos uma vez por ano Perna vem até o Brasil e quando questionado sobre o que mais sente falta é categórico ao dizer “Minha mãe e minhas filhas logo de cara, pois esta saudade não é fácil não, depois vou logo comer um Pastel e tomar um caldo de cana na feira do Pira”(risos). Perna também traz consigo diversos alunos e amigos para conhecerem sua cidade de origem. Para os freqüentadores das academias dos Irmãos Guerreiros em Taboão, já se tornou comum ver jovens europeus jogando com brasileiros nas rodas ou oficinas. Todos já praticam capoeira em sua cidade natal, mas vem aqui para entender melhor a origem do grupo. “Nossa cultura é muito respeitada aqui fora. As pessoas praticam com muito amor e interesse, então é isso que faz com que os europeus queiram conhecer o Brasil. Como venho de Taboão da Serra, nascido e criado nas ruas do Pirajuçara, onde sempre tive e ainda tenho um trabalho sociocultural, eles querem ver de onde eu venho, como funciona, pois aqui tenho um pedaço da comunidade do Taboão dentro da Alemanha”. Esse tipo de intercâmbio eleva a auto estima do brasileiro e nos ajuda a valorizar e que temos de bom em nosso próprio pais.“Movimentos como o hip hop, reggae, e capoeira estão fazendo com que o povo volte um pouco mais os olhos pra cultura aqui em Taboão da Serra”.

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